Boato – A população da Venezuela estaria consumindo carne de cachorro de forma generalizada devido à crise econômica no país.
Análise
A situação socioeconômica da Venezuela tem sido tema central de debates calorosos em toda a América Latina, especialmente no Brasil, onde o fluxo migratório de venezuelanos é constante. Recentemente, a circulação de um vídeo em plataformas como o YouTube e o TikTok reacendeu uma tese que ganha força em períodos de polarização política: a de que a miséria no país vizinho atingiu um nível tão crítico que a população passou a adotar o consumo de carne de cachorro como alternativa para aplacar a fome.
A narrativa é frequentemente acompanhada por depoimentos de imigrantes que relatam cenários desoladores sob o governo de Nicolás Maduro. No vídeo que serve de base para o atual alarde, um entrevistado afirma categoricamente que a picanha no país foi substituída por animais domésticos e que um frango custaria o equivalente a um ano e meio de salário básico. Leia:
Entrevistador: Lá na Venezuela a carne é o quê? Entrevistado: A carne é cachorro! Ao princípio achei que era uma brincadeira, pero no, agora está comprovado. A gente escuta um “au au”, sai correndo para pegar o cachorro para comer. Não tem nada. Entrevistador: Então na Venezuela a picanha é o cachorro?
Entrevistado: Hum-hum. Entrevistador: E o Lula falando que come picanha aqui. “Come picanha, hoje eu como picanha”. Entrevistado: Um frango é um ano e meio de salário básico para comprar um frango. Como você faz? Entrevistador: Porra, um salário e meio… puta que pariu. Entrevistado: Um ano e meio de salário básico. No momento, lá, se você tem sorte…
Checagem
Para entender a veracidade dessa história, vamos responder às seguintes questões: 1) Pessoas comem cachorro para não passar fome na Venezuela? 2) O que explica o vídeo em que um homem diz que pessoas comem cachorro para não passar fome na Venezuela? 3) Há chance de ocorrer um caso isolado desta natureza?
Pessoas comem cachorro para não passar fome na Venezuela?
Não há qualquer evidência documental, institucional ou jornalística de que o consumo de carne de cachorro seja uma prática disseminada ou cultural na Venezuela, mesmo diante da crise. Embora o país enfrente índices graves de insegurança alimentar — decorrentes de uma combinação de gestão governamental, sanções econômicas estrangeiras e a flutuação do preço do petróleo —, a tese do consumo de cães carece de provas materiais.
O que explica o vídeo em que um homem diz que pessoas comem cachorro para não passar fome na Venezuela?
O vídeo em questão apresenta um relato individual e anedótico. Desde 2022, esse tipo de conteúdo tem sido amplamente instrumentalizado por figuras políticas para gerar comoção e medo. Histórias similares já foram desmentidas por cidadãos que vivem no país e por organizações que monitoram a crise humanitária local.
Dois exemplos podem ser vistos nestes vídeos do YouTube Shorts e no TikTok em que venezuelanos (em um caso) confirma as dificuldades alimentares, mas nega o consumo de cães e (em outro) fala que o único cachorro que se come é o “cachorro-quente”.
Há chance de ocorrer um caso isolado desta natureza?
Diferente de algumas regiões da Ásia, onde o comércio de carne canina existe de forma regulamentada ou tradicional, na Venezuela não existem registros de abate, venda ou consumo generalizado desses animais em mercados ou açougues.
No contexto de miséria extrema, casos isolados de desespero podem ocorrer em qualquer lugar do mundo, inclusive no Brasil. No entanto, é fundamental separar um evento individual e excepcional de uma política de Estado ou de um comportamento social de massa. Especialistas em economia e sociologia apontam que, apesar das prateleiras vazias em determinados períodos, a dieta venezuelana, quando disponível, ainda se baseia em grãos, farinha de milho e, em menor escala, proteínas convencionais. Não há “caça a cachorros” nas ruas de Caracas como as mensagens sugerem.
Conclusão
Em resumo, a afirmação de que os venezuelanos estão comendo cachorro de forma rotineira por causa da crise é uma tese antiga que carece de comprovação. O país vive, sim, um cenário de escassez e dificuldades econômicas profundas, mas a narrativa do consumo de animais domésticos é uma distorção utilizada para fins de propaganda política, sem sustentação na realidade fática do dia a dia da população.
Fake news ❌
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