Pular para o conteúdo

É falso que JBS esteja exportando carne com cocaína para a Europa e EUA

JBS está exportando carne com drogas para EUA e Europa, diz boato (Foto: Reprodução/Instagram)

Boato – A JBS, gigante brasileira do setor de carnes, estaria utilizando suas exportações para enviar grandes quantidades de cocaína para a Europa e os Estados Unidos, após uma série de apreensões em portos internacionais.

Análise

O tráfico internacional de drogas se reinventa constantemente, buscando métodos cada vez mais ousados para camuflar grandes quantidades de entorpecentes e burlar a fiscalização de portos em todo o mundo. Não é incomum que cargas lícitas e gigantescas, como grãos, minérios e, sim, alimentos congelados, sejam utilizadas como “mulas” no transporte de cocaína em rotas transoceânicas.

Esse cenário de apreensões frequentes em países como Espanha, Portugal e Reino Unido, onde a droga é encontrada escondida em contêineres de carne, peixe ou outros produtos brasileiros, cria um terreno fértil para a disseminação de boatos e teorias.

Nesse contexto, começou a circular nas redes sociais, a tese de que a maior exportadora de carnes do Brasil, a JBS, estaria ativamente envolvida nesse esquema. A acusação é grave: a empresa estaria usando sua vasta rede logística, que inclui acesso a portos, cadeia de frio e rotas internacionais, para enviar cocaína para a Europa e os Estados Unidos. O boato adiciona “insights” sobre encontros de pessoas ligadas ao grupo J&F na Venezuela e a coincidência das rotas marítimas. Leia a transcrição de um vídeo que aponta para a acusação:

Caramba, o Allan dos Santos fez uma postagem, e sabe quando você tem aquele insight? Escuta isso. Nos últimos anos, vários países da Europa como o Reino Unido, a Espanha e Portugal, começaram a apreender cargas enormes de cocaína escondidas dentro de carne bovina, frango, peixe e até atum congelado. Isso mesmo, tá? Carne congelada sendo usada como transporte de droga. Aí você para para pensar, né? Quem é que é o maior exportador desses produtos para o mundo inteiro?

O Brasil, não é verdade? Quem é que domina esse mercado? A JBS, não é? Controlada pelo grupo J&F, um gigante que opera em dezenas de países com acesso a portos estratégicos, cadeias de frio, containers, refrigeradores, rotas marítimas internacionais, até, tudo dentro da normalidade de uma multinacional. Mas aí é que entra aquele ponto que acendeu o alerta, tá? Nos últimos dias, começaram a circular, né, ali no final de semana, vídeos, relatos, né, de pessoas ligadas ao grupo J&F envolvidas em agendas e encontros na Venezuela, justamente o país que os Estados Unidos classificaram até agora como uma das maiores rotas de movimentação de cocaína do planeta.

E quando você observa o mapa, percebe que as mesmas rotas marinhas usadas para levar carne do Brasil para a Europa são exatamente as mesmas rotas monitoradas pela DEA, pela Guarda Costeira americana. Outro detalhe: Os portos, ah, os portos brasileiros onde o grupo tem atuação forte, são os mesmos onde nos últimos anos ocorreram as maiores apreensões e investigações suspeitas de cargas, né, de cargas de droga. Quanto mais você junta tudo, fica fácil, né, de ignorar esse desenho. E daí, quando colocadas lado a lado, formam um padrão que ninguém comenta. Mas ele que está, né? Está ali. Tudo na nossa cara. Tudo. Mas ninguém quer comentar.

Checagem

Apesar da viralização, a narrativa do boato se mostra infundada e utiliza uma série de informações desconexas para construir uma teoria da conspiração sem sustentação. Para desvendar a veracidade dessa história que acusa a JBS de tráfico internacional, precisamos responder a três questões centrais: 1) JBS está exportando carne com drogas para EUA e Europa? 2) Há alguma prova de que a JBS esteja exportando carne com drogas para EUA e Europa? 3) Houve ocorrências do tipo?

JBS está exportando carne com drogas para EUA e Europa?

Não há absolutamente nenhuma informação oficial ou investigação em curso, seja no Brasil, na Europa ou nos Estados Unidos, que aponte a JBS, o grupo J&F ou qualquer de seus executivos como envolvidos diretamente no esquema de tráfico de drogas em contêineres de carne.

Uma acusação de tamanha gravidade, envolvendo uma das maiores empresas do mundo em seu setor (conforme rankings internacionais), teria desencadeado operações policiais e investigações de alto perfil que seriam amplamente noticiadas pela imprensa global. A simples constatação de que o Brasil é o maior exportador de carne não implica que a maior empresa do setor esteja, por si só, ligada a atividades ilícitas.

Há alguma prova de que a JBS esteja exportando carne com drogas para EUA e Europa?

A resposta é um categórico não. O texto do boato utiliza o argumento da coincidência de fatores: o Brasil exporta carne, a JBS é a líder e houve apreensões em portos que recebem carne brasileira. No entanto, a ausência de provas documentais, como indiciamentos, relatórios policiais ou menções formais em investigações, é o que descredibiliza a teoria.

O tráfico de drogas, em geral, utiliza cargas de empresas legítimas como uma tática de camuflagem, ou seja, criminosos frequentemente contaminam contêineres sem o conhecimento ou o envolvimento da exportadora. A insinuação de que encontros de pessoas ligadas à J&F na Venezuela, ou o fato de as rotas marítimas serem as mesmas monitoradas pela DEA (agência antidrogas dos EUA), seriam provas, não passa de uma suposição leviana que tenta conectar pontos aleatórios para validar uma tese já definida.

Houve ocorrências do tipo?

Sim, é fato que as polícias europeias e a Receita Federal brasileira já realizaram apreensões de cocaína escondida em cargas lícitas vindas do Brasil, incluindo carnes e outros produtos congelados. Notícias reportam apreensões em portos como o de Valência, na Espanha, onde a droga estava ocultada em contêineres de carne congelada (como a divulgada pela SIC Notícias).

O jornal Extra também já documentou as diversas formas criativas, como esconder drogas em bucho de boi e outros itens, que traficantes internacionais utilizam. Contudo, é crucial reiterar: a existência desses casos de tráfico internacional não liga a JBS a eles. O fato de contêineres que transportam carne serem usados como fachada não implica o envolvimento da exportadora da carga, mas sim a ação de organizações criminosas que exploram a logística de grandes cadeias de suprimentos.

Conclusão

A acusação de que a JBS estaria exportando carne com drogas para a Europa e os Estados Unidos é uma teoria da conspiração sem base factual. O boato se apoia em fatos reais isolados — como a ocorrência de apreensões em cargas de carne e a posição da JBS como grande exportadora — para construir uma narrativa que convenientemente liga a empresa ao tráfico, sem apresentar qualquer prova, investigação ou relatório oficial que corrobore a denúncia. Trata-se de uma acusação extremamente grave e leviana contra uma multinacional que, inclusive, possui uma operação de exportação que, por si só, já movimenta bilhões de reais.

Fake news ❌

Ps: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo e-mail boatos.org@gmail.com e WhatsApp (link aqui: https://wa.me/556192755610)