Corretores da redação do Enem espionam perfis do Facebook #boato

Boato – Corretores da redação do Enem estão espionando o perfil das pessoas no Facebook para ver a orientação ideológica deles.

Todos os anos, a mesma coisa acontece: quando sai o resultado da redação do Enem, muitas pessoas comemoram a nota tirada no exame e outras tantas lamentam o resultado obtido. No meio disso, diversas acusações sempre aparecem. Uma dessas acusações tem chamado atenção na internet.

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Um texto publicado no Facebook “denuncia” que a correção da prova do Enem tem sido feita com base em um fator “extra-texto”: de acordo com a mensagem, corretores do Enem estão indo nas redes sociais das pessoas para ver qual é o perfil ideológico da pessoa. Isso seria feito para aprovar “candidatos de esquerda”. Leia a mensagem que circula online:

Uma dica aos pais e mães de vestibulandos de 2017: Orientem seus filhos para mudar ou tirar o sobrenome deles do Facebook, Instagram ou qualquer outra rede social. Corretores de redação buscam e analisam os perfis dos vestibulandos para verificarem a orientação ideológica e política dos candidatos.

Conforme for, zeram a redação eliminando um bom candidato mas que politicamente não interessa mesmo que ele tenha gabaritado nas objetivas e aprovam no lugar dele um esquerdinha incompetente mesmo que ele tenha escrito uma receita de Miojo na redação.

Escutem o que eu digo: Se o objetivo do vestibulando é passar em uma universidade federal: mudem o sobrenome do Face para que o perfil do aluno e dos pais não sejam rastreados.

Redação do Enem é corrigida com base em perfil do Facebook?

A “denúncia” ganhou mais de 2 mil compartilhamentos em menos de dois dias. Mas será que há alguma lógica na denúncia? Corretores do Enem estão, de fato, olhando os perfis para eliminar candidatos? A resposta é não. Vamos aos fatos.

Qualquer pessoa com o mínimo de senso pensaria duas vezes antes de compartilhar a história como verdade absurda. No caso de hoje, vamos usar a tese da redução ao absurdo na análise da mensagem.

Como é possível ver no texto, a pessoa que faz a acusação é incisiva ao dizer que “corretores olham os perfis e zeram a redação das pessoas”. Mas qual é a prova que ela teria para isso? Uma pessoa fez a pergunta nos comentários. Leia a resposta:

Experiência própria e hoje vi como funcionam as fraudes nos concursos públicos para enfiar esquerdalha na máquina estatal. Minha filha é muito estudiosa e inteligente, sem falsa modéstia. Tirou todas as notas dos vestibulares e Enem acima de 8 e 9 e zerou na redação e a alegação deles foi que ela fugiu do tema. Mentira. Pois eu li a redação. E não há a possibilidade de recurso. Minha filha escreve muito bem e foi eliminada por conta de seu perfil ideológico e rastrearam de quem ela é filha. Tenho certeza disso.

A alegação dela é de que a filha zerou a redação no Enem por causa do perfil no Facebook. Ou seja, a tese é que a filha sofreu uma injustiça por causa do perfil ideológico da filha e da pessoa (que em redes sociais publica mensagens a favor de Bolsonaro, contra imigração e pedindo a prisão de Lula). Agora fica a questão: qual prova foi apresentada? Nenhuma.

Existe um outro furo: os corretores da redação não têm acesso às notas da prova objetiva do Enem. Então como eles vão saber se “um candidato é bom” para zerar a redação? Outra questão não respondida: por que razão o MEC (que tem um ministro do DEM) e o governo (que está na mão do PMDB) vão querer aprovar “esquerdalhas” nas universidades?

Uma outra afirmação falsa está no fato de que só há pessoas de esquerda nas universidades. Neste sentido, há uma confusão entre as pessoas que ocupam os movimentos estudantis (esses, sim, predominantemente de esquerda) com quem, de fato, ocupa as vagas. Duvida? Faça duas coisas: pesquise por grupos de direita dentro de universidade e/ou caminhe por uma instituição. Você verá que a tese cai.

Só para terminar e deixar tudo bem clarificado: se engana quem acredita que a correção do Enem “permite” que pessoas de esquerda escrevam receita de Miojo na redação. Desde 2013, prova “que apresente parte do trecho deliberadamente desconectada com o tema proposto, que será considerada Anulada”. Ou seja, “Miojos” não são mais aceitos.

Resumindo: a denúncia que aponta que examinadores do Enem estão olhando o perfil das pessoas no Facebook para zerar a redação não só não tem provas como também não faz muito sentido e, claro, não deve ser tomado como verdade absoluta.

PS: Esse artigo foi uma sugestão de Marcos Freitas e de diversos leitores via WhatsApp. Se você quiser sugerir um tema para o Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook ou WhatsApp, no telefone (61) 99331 6821.

Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet

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