Oferendas nas encruzilhadas eram para escravos fugitivos #boato

Boato – Professor Leandro, historiador da UnB, contou que as oferendas da Umbanda nas encruzilhadas surgiram para escravos que fugiam de feitores.

Religião é um tema que nunca sai do debate na internet. Há quem defenda que o cristianismo é a única religião válida, há quem defenda que não deveria existir nenhuma religião e há que acredite que toda religião é válida. No meio disso, as religiões de matrizes africanas (como a Umbanda e o Candomblé) são questionadas por alguns e defendida por outros. A história na qual vamos falar hoje foi compartilhada pelo segundo grupo.

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Um texto que circula na internet aponta que o “professor Leandro, da UnB” disse que as oferendas deixadas nas encruzilhadas têm um valor para além da religião. O tal professor teria dito que era uma forma dos negros alimentarem “irmãos escravos” que fugiam dos feitores. O texto foi compartilhado em algumas páginas do Facebook e teve muitos compartilhamentos. Leia:

De acordo com o professor Leandro (historiador da UnB) as oferendas deixadas nas encruzilhadas era uma forma dos negros alimentarem seus irmãos escravos que estavam fugindo dos feitores. Os pretos escolhiam lugares estratégicos por onde escravos fugitivos passariam e colocavam comida pesada; carne, frango e farofa porque sabiam da fome e dos vários dias sem comer desses indivíduos e deixavam também uma boa cachaça pra aliviar as dores do corpo e dar-lhes algum prazer na luta cotidiana.

As velas eram postas em volta dos alimentos pra que animais não se aproximassem e consumissem o que estava reservado para o irmão em fuga e aí surge o que todos conhecem como macumba. O rito permanece sendo realizado pelas religiões afro como forma de agradecimento e pedidos aos seus ancestrais e em homenagem a seus santos. A cultura branca e eurocêntrica foi quem desvirtou a prática, para causar medo, terror e abominação e reforçar os preconceitos e discriminações contra os negros.

Não tenho religião e não pratico nenhum culto mas gosto de saber que já houve tanta solidariedade no mundo e que as pessoas se preocupavam muito umas com as outras a ponto de fazerem um esforço pra alimentarem alguém mesmo sem conhecerem o seu rosto. Hoje vejo tanta gente em igrejas e igrejas em tantos lugares servindo apenas como instrumento de manipulação e exploração da fé alheia para manutenção do poder. Enfim nós não evoluímos.

Oferendas nas encruzilhadas eram deixadas para escravos fugitivos?

A história foi muito compartilhada, principalmente por pessoas que defendem o sincretismo religioso. Porém, há dois detalhes que muitos não se atentaram. 1) Se você analisar o texto, ele desmerece a religião. 2) A história da origem das oferendas nas encruzilhadas é uma balela. Vamos aos fatos.

Antes de analisar o conteúdo em si, tentamos procurar pelo “professor Leandro da UnB”. Como era de se imaginar, não encontramos nada. Na lista de docentes do departamento de história da universidade, não há nenhum “Leandro”. Por sinal, que texto é esse que não dá nem o sobrenome do professor?

Atualizado em 16/06: alguns leitores nos informaram que há um “professor Leandro” na UnB. Apesar de o nome do professor Leandro Bulhões não constar na lista de docentes de história da Universidade de Brasília, ele dá aulas de História da África como professor substituto na instituição. 

Depois da repercussão da história, Bulhões divulgou uma nota explicando o mal-entendido. Ele endossou que nunca falou sobre a história de oferendas e escravos. O que aconteceu foi uma distorção de uma fala dele em uma banca de TCC na universidade. Ou seja: o próprio “professor Leandro” afirmou que a tese de oferendas e escravos é falsa. 

Falando da história em si, o primeiro ponto que desmascara a farsa é a falta de registros históricos que apontem para a tese das oferendas nas encruzilhadas e os escravos. É possível que escravos fugitivos tenham, de fato, se alimentado de oferendas em alguma oportunidade (o que é bem comum com moradores de rua, por exemplo). Mesmo que tenha acontecido isso, não foi algo que marcou a história. Muito menos foi a motivação para o ato da oferenda no Candomblé, Umbanda e outras religiões.

Além de não existir registros sobre a história contada na web, especialistas refutaram a tese das encruzilhadas e escravos. O historiador Luiz Antônio Simas foi enfático ao classificar a mensagem como “horrorosa, falaciosa e fantasiosa”. Se você quiser saber mais sobre o assunto, vale ler o post do professor.

Três pessoas me enviaram um texto horroroso sobre cerimônias em encruzilhadas. O texto é fantasioso, racista e busca, no fundo e no raso, desqualificar os sentidos diversos que as encruzilhadas têm para as sofisticadas cosmogonias e espiritualidades afro-diaspóricas. O que está escrito ali é uma barbaridade.

Diante de um texto falacioso e fantasioso sobre oferendas nas encruzilhadas que está circulando na rede – que me parece ter a intenção de desqualificar as cosmogonias e crenças afro-brasileiras ao tirar das encruzilhadas as complexas atribuições de sentidos que os caminhos cruzados têm – reproduzo, com mínimas modificações, um texto que escrevi em 2014 para o jornal O Dia.

O historiador “com nome e sobrenome” Marcelino Conti (da UFF) também refutou a história. Ele classificou a estória como “para boi dormir”. Leia trecho do que ele escreveu e se quiser saber mais, clique aqui.

Em meios aos ataques de racismo religioso, (as centenas de casos de intolerância somada as centenas de leis municipais equiparando as oferendas como lixo, e a tentativa de criminalizar o sacrifício de animais em rituais das religiões de matriz africana) surge a estória pra boi dormir: a “macumba” surgiu das oferendas deixadas nas encruzilhadas para que os escravos fugitivos pudessem se alimentar para aguentarem a fuga.

Como a estória esta mal contada ela começa dizendo que um “Professor Leandro”, que ninguém sabe o sobrenome, foi quem contou a grande novidade histórica, demonstrando total desconhecimento de coisas básicas das religiões de Matriz Africana.

Resumindo: a história que aponta que as oferendas nas encruzilhadas surgiram para alimentar escravos fugitivos não só é furada como também desmerece todo o sentido religioso e de fé envolvidos na Umbanda, Candomblé e outras religiões. Se você acha que está ajudando as religiões de matriz africana com este texto, está enganado. Não caia nessa.

PS: Este artigo foi uma sugestão de Fernando Luiz, Felipe Gomes, Ialaa, Cesar Lima e de diversos leitores via WhatsApp. Se você quiser sugerir um tema para o Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook ou WhatsApp, no número (61) 9331 6821.

Contamos também com a colaboração de Bárbara Dias e Ernesto Felício para esclarecermos a história com a versão do professor Leandro Bulhões. 

Edgard Matsuki

Jornalista e caçador de falcatruas na internet

19 comentários em “Oferendas nas encruzilhadas eram para escravos fugitivos #boato

  • 24/06/2017 em 15:19
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    E vocês da página estão no primeiro grupo, os que não acreditam, com essa matéria tendenciosa e escrita chula..

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  • 18/06/2017 em 01:24
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    Para quem conhece um pouco sobre rituais afro-brasileiros, dúvida não pode ter, realmente se trata de uma simples teoria sem qualquer tipo de fundamento, sequer histórico. Pareceu, ao meu ver, que apenas está tratando de uma forma de romantizar tais rituais para os leigos, os quais, em sua grande maioria, são contrários às tradições religiosas trazidas da África pelos seus povos. Ora, por outro lado, o negro fugitivo sabia muito bem como se virar diante das vicissitudes do tempo e de alimentação. Bem assim, tais rituais eram proibidos pela sociedade católica cristã da época, com penas por demais severas contra seu praticantes. Aí foi onde surgiu o sincretismo religioso, quando os escravos realizavam os seus rituais aos orixás usando das imagens de santos católicos, como por exemplo, com a imagem de São Jorge realizar os rituais ao orixá Ogum, o guerreiro, simulando diante dos seus senhores seus próprios ritos religiosos, onde estes não conseguiam captar o verdadeiro sentido do culto, pois apegados à imagem de um santo da igreja romana.

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  • 18/06/2017 em 00:27
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    Esse texto que ainda viraliza no whatss, não se sabe bem de quem é. Pode ser de uma tal Suzana Xavier ou de um tal Pedro Cesar Batista. Mas é de uma infelicidade, de uma ignorância tremendas. Inventaram isso. A tal Susana disse lá no site https://www.xapuri.info/historia-social/encruzilhadas-nota-leandro-bulhoes/ que ela inventou isso da cabeça dela ‘numa interpretação que pode ajudar os afrodescendentes’. Tá! Susana, aí você joga toda a responsabilidade nos brancos de origem europeia? Você ignora que há itans, lendas africanas, antigas, que falam de negros arriando ebós em diversos lugares. Minha opinião: falta do que fazer, falta de seriedade acadêmica e de pesquisar antes de escrever sandices pela internet.

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  • 17/06/2017 em 01:51
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    Então explique o motivo disso aqui,apresente uma contra proposta..

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  • 17/06/2017 em 01:02
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    ok. mas qual a real origem das oferendas então?

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  • 17/06/2017 em 00:46
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    Existe um professor de História da África, Leandro Santos Bulhões de Jesus, no UniCEUB – Centro Universitário de Brasília que bem poderia ser o mencionado no texto. http://lattes.cnpq.br/1892221694481474 Tentei contato com ele, estou aguardando resposta.

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  • 16/06/2017 em 22:44
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    Amiga Telma Prado: “Fui uma das pessoas que repassou o texto do Carlos Akinjole com uma das tantas interpretações sobre os despachos nas encruzilhadas, o qual achei bem coerente. O meu espanto é ver a reação que tal texto causou, tanto positivamente, como negativamente, com reações diversas, e pareceres de vários “especialistas”… É só mais uma versão da história, da qual sabemos quase nada, pois os relatos do passado que chegaram até nós, estavam manchados pelo mofo das longas noites da história. É uma pena que nós estejamos tão encouraçados, refratários às manifestações daqueles que pensam de modo diverso ao nosso… Alguns chegaram a dizer que não existia nenhum professor Leandro. Claro que pesquisei e encontrei o professor Leandro Bulhões de Jesus. https://www.escavador.com/sobre/5969953/leandro-santos-bulhoes-de-jesus

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    • 17/06/2017 em 14:02
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      Mas uma versão deve ser a verdadeira. Essa é a que devemos buscar sempre.

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  • 16/06/2017 em 22:43
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    O texto que está circulando começa com “De acordo com o professor Leandro…”. Isso é perigoso porque alguém cita o meu nome, mas não fui eu quem o escreveu. Eu fiz uma fala pública e uma pessoa que me ouviu escreveu e publicou no facebook um texto associando os meus argumentos a uma espécie de “história das origens das oferendas e da macumba”. Em seguida, ela aponta outras coisas de tal modo que não é possível fazer uma separação entre um tema que foi discutido em minha fala e depois as suas considerações próprias a respeito do assunto. Na medida em que este texto viralizou, ficou parecendo que se tratava de um texto de minha autoria, mas não é o caso. Peço licença para explicar nestas próximas linhas o meu entendimento sobre o acontecido.
    Veja mais no link acima

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  • 16/06/2017 em 22:21
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    Há mesmo um professor de nome Leandro na UNB. Trata-se de Leandro Bulhões, cujo nome foi usado de forma indevida para divulgar uma teoria que não é de sua autoria. Ele esclarece que ao contrário do que tem sido publicado na internet e whatsapp, as oferendas surgiram como elementos místicos e religiosos, não como uma necessidade de alimentar escravos libertos.

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  • 16/06/2017 em 20:12
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    Nota de esclarecimento do Professor Leandro Bulhões da UNB que peguei no facebook:
    https://www.facebook.com/ilexsilva/posts/1326533527461441
    Nota do “Professor Leandro da UnB” sobre o texto que circulou e que não é da sua autoria
    “A bênção às mais velhas; a bênção aos mais velhos.
    O texto que está circulando começa com “De acordo com o professor Leandro…”. Isso é perigoso porque alguém cita o meu nome, mas não fui eu quem o escreveu. Eu fiz uma fala pública e uma pessoa que me ouviu escreveu e publicou no facebook um texto associando os meus argumentos a uma espécie de “história das origens das oferendas e da macumba”. Em seguida, ela aponta outras coisas de tal modo que não é possível fazer uma separação entre um tema que foi discutido em minha fala e depois as suas considerações próprias a respeito do assunto. Na medida em que este texto viralizou, ficou parecendo que se tratava de um texto de minha autoria, mas não é o caso. Peço licença para explicar nestas próximas linhas o meu entendimento sobre o acontecido.
    Na semana passada, eu participei de uma banca de defesa de trabalho de conclusão de curso na Universidade de Brasília. Na ocasião, houve uma discussão sobre como as encruzilhadas atuais das cidades modernas são espaços de sociabilidades e de resistências. Nos semáforos, homens, mulheres e crianças, expressivamente negros e negras, realizam trabalhos diários, conseguindo dinheiro por meio da venda de doces, água, panos de prato, frutas, entre outros produtos.
    Na condição de historiador e avaliador do trabalho, provoquei o autor da pesquisa, chamando atenção para o fato de que muitas ruas e encruzilhadas das cidades do nosso país são espaços de memórias do nosso povo negro, pois são locais onde homens, mulheres e crianças negras fizeram negócios, venderam produtos e conquistaram níveis de autonomia, bem como conquistaram as suas liberdades, comprando-as, no período da escravidão. A ideia era perceber que a existência majoritária dos corpos negros em situação de vulnerabilidades sociais nas esquinas das cidades brasileiras, lutando diariamente por sobrevivência, é desdobramento do período colonial e do racismo brasileiro e não são apenas um fenômeno da modernização das cidades com seus semáforos e sinaleiras.
    Entretanto, além de serem espaços onde negócios aconteciam e acontecem, as encruzilhadas são domínios das entidades das ruas, dos caminhos e da comunicação, como Exus e Pombagiras. As encruzilhadas são, portanto, espaços especiais de cultos que possuem significados específicos para as pessoas que fazem parte das religiões afro-brasileiras. Interessava-me, com este argumento, trazer referências dos conhecimentos africanos e afro-brasileiros ao trabalho do estudante. Foi neste momento da minha fala que enfatizei que as oferendas nas encruzilhadas PODEM também se configurar como uma importante estratégia de proteção às pessoas em situação de rua, ou que no passado estavam em situação de fuga, uma vez que não é novidade entre as pessoas dos candomblés, dizer que as pessoas nas ruas comem os alimentos que estão nos despachos. É comum encontrar nas oferendas elementos como frango, ovos, farofa, frutas, cachaça, velas, dinheiro. Vale salientar que o universo dos despachos e oferendas é complexo e não são reduzidos às práticas nas ruas.
    Historicamente falando, não é difícil vincular a circulação destes alimentos ritualísticos nas cidades brasileiras às várias estratégias emancipatórias e de proteção criadas pelos povos negros, sobretudo diante das experiências da colonização, com as marcas do abandono social, que gerou marginalidades e fome nas ruas para estes povos. No entanto, ainda que algumas pessoas tenham feito uso deste possível mecanismo de enfrentamento das fomes, como eu falei, estas experiências NÃO SÃO A BASE DA ORIGEM DAS INÚMERAS OFERENDAS DOS CANDOMBLÉS NEM DO “SURGIMENTO DA MACUMBA”. Esta teoria é falsa e levar essa ideia adiante seria o mesmo que dizer que em uma situação hipotética onde não houvesse negros e negras em situação de vulnerabilidades no passado em nosso país, teria cessado a prática que os povos africanos trouxeram do continente de realizar suas oferendas. Eu não acredito nisso.
    Ora, imaginar que um irmão ou irmã negra daria jeito para alimentar outros irmãos e irmãs em situação de rua, seja nos tempos da escravidão ou nos anos difíceis do pós-abolição, fazendo uso de comidas, cachaças e sinalizando comidas com velas em lugares estratégicos com as encruzilhadas, não é difícil de se pensar. Mas tais práticas se configurariam como experiências particulares ou ainda como ressignificações dos usos das oferendas que já existiam antes, desde as Áfricas, nos cultos aos voduns, nkices e orixás e não explicam o surgimentos dos candomblés nem das inúmeras modalidades de rituais de oferendas.
    De fato, em sala de aula, também já enfatizei e enfatizo as estratégias de sobrevivências e de solidariedades que são fundamentais para a resistência do povo negro e já explorei as potencialidades da imagem da circulação de alimentos num contexto urbano, como é o caso de algumas oferendas constituídas por comidas e bebidas. Um dos principais problemas das ideias que estão no texto que viralizou e que não é da minha autoria é que ele não aponta a dimensão dos conhecimentos, ciências, cosmovisões, projetos de sociedade que os povos africanos trouxeram para o Brasil no tráfico atlântico e dá a entender que os candomblés só podem ser compreendidos no “antes e depois” da escravatura. Isso não poderia ser verdade.
    Sobre a viralização deste texto, penso que o fato de ter sido citado que “um historiador da unb disse…” deve ter tido um peso grande na credibilidade da circulação do mesmo. Há um vício antigo de pensar que historiadores são “os donos da verdade” e profissionais capazes de explicar as origens das coisas.
    Pergunto-me, portanto: por quais motivos este tema passou a interessar a tantas pessoas?
    As irmãs e os irmãos de candomblé que me procuraram ontem e hoje, perguntaram se o conteúdo do texto era meu e ficaram muito preocupados com a dimensão da circulação das ideias, pelos motivos já aqui expostos. E, portanto, agradeço pelo cuidado em terem me mantido informado sobre como o meu nome estava circulando no facebook nos últimos dois dias, já que não estou nesta rede social, além de estar fora de Brasília, trabalhando em viagem de campo. Esta dimensão de proteção e cuidado de nós negros e negras com nossos irmãos e irmãos negros é a base da explicação sobre porquê ainda hoje existimos enquanto comunidade, ainda que o projeto colonial do passado, com suas heranças no presente, tenha nos educado para nos destruirmos.
    A parte positiva da circulação do texto que escreveram é que foi colocado em pauta a discussão acerca das redes de solidariedades e as práticas de cuidado e amor dos nossos antepassados com os seus irmãos e irmãs negras. Isso também não é novidade para nós! Mas é para muita gente.
    Então, para as pessoas que estão impressionadas com a história das comidas, cachaças e velas, saibam que definitivamente não é esse movimento isolado que pode explicar o surgimento nem os fundamentos das complexas oferendas nem dos candomblés. Saibam ainda que os nossos antepassados não só encontraram estratégias para comer e dar de comer aos seus irmãos e irmãs, como construíram inúmeros mecanismos de proteção à escravização de seus corpos no próprio continente africano, fizeram revoltas nos navios negreiros, quebraram engenhos onde realizavam trabalhos forçados, fugiram do cárcere, elaboraram e praticaram projetos de revolução social, criaram e mantiveram quilombos e terreiros de candomblés.
    Sem discutir solidariedades, redes de proteção e afetividades é impossível compreender a abolição da escravatura e a permanente luta dos movimentos sociais negros dos séculos XX e XXI. Sem discutir as capacidades de autonomia, autogestão e negação do projeto colonial jamais vamos compreender que os povos africanos que para cá vieram numa migração forçada não foram apenas força de trabalho, como está inscrito na memória nacional. Os negros e as negras que vieram antes de nós, juntamente com os povos originários desta terra, os chamados indígenas, civilizaram este país e jamais vamos compreender a nossa história e as nossas identidades sem conhecermos este patrimônio que nos pertence e que a experiência colonial capitaneada pelos brancos tentou nos tirar. Quando falei publicamente da importância das encruzilhadas quis exatamente chamar a atenção para as formas com as quais estes espaços possuem outras lógicas para o povo de santo, sobretudo no que diz respeito a conhecimentos que estão na oralidade e que a universidade não sabe.
    Repito que quem tem o mínimo de conhecimento sobre as religiões de matrizes africanas sabe que relacionar escravidão, fome, oferendas e surgimento dos candomblés não faz o menor sentido. E por isso, muita gente está revoltada com a circulação da referida teoria. Este fenômeno pode revelar também que os povos de santo e o povo negro, de um modo geral, possuem uma memória de contestação das ideias que são elaboradas e defendidas em espaços majoritariamente brancos e elitistas como foram e ainda são as universidades brasileiras.
    Muita gente de candomblé, mas não apenas, se enfureceu com o fato de que supostamente um “professor da unb” teria dito algo sobre o “surgimento” dos cultos de matrizes afro-brasileiras. Ora, certamente muita gente questionou: “quem o professor pensa que é para falar sobre os nossos conhecimentos, mistérios e ciências? Quem ele pensa que é para falar por nós, povos de santo?”. De fato, passou-se o tempo em que intelectuais podiam carregar as supostas verdades sobre as coisas do mundo. Isso levanta uma questão muito importante que a nossa geração de professores e professoras, pesquisadoras e pesquisadores negros (bem como os e as integrantes de movimentos sociais) temos debatido e denunciado nos espaços acadêmicos: nós não aceitamos mais que os discursos ditos científicos digam o que somos sem a nossa participação ativa. Claro que isso não impede que pesquisas e trabalhos, etc, sejam realizados, mas desde a conquista das cotas raciais nas universidades brasileiras que há uma expectativa relacionada a recente entrada de estudantes e professores negros e negras, dos quais me incluo, em transformar urgentemente as metodologias e abordagens que os e as cientistas historicamente utilizaram. Afinal, se antes, nós negros e negras éramos os chamados “objetos” de pesquisa, hoje estamos nas salas de aula e laboratórios na condição de pesquisadoras, pesquisadores e cientistas. Mas ainda somos muito poucos nesta condição (Eu, inclusive, sou professor substituto na Universidade de Brasília. Meu contrato vence este mês de junho). Aliás, qual a porcentagem de docentes negras e negros nas universidades públicas e privadas, estaduais e federais em nosso país podendo falar sobre a história do próprio povo negro, entre outros temas? E professores e professoras indígenas?
    O texto que viralizou não traz o meu nome completo e sei que muitas pessoas se referiram a este post associando a imagem do doutor ao branco, não supondo sequer que o “professor Leandro da UnB” poderia ser um homem negro engajado em difundir respeitosamente os conhecimentos ligados às tradições brasileiras de matrizes africanas.
    É preciso ressaltar que a falta de conhecimentos que o povo brasileiro tem sobre as religiões de matrizes africanas não é um acidente. É parte do racismo estrutural que demonizou e demoniza, perseguiu e persegue as pessoas que fazem parte destas religiões. São permanências de um Brasil do passado que criminalizou os batuques, a capoeira, os candomblés. Trata-se de desconhecimentos estratégicos que negam as nossas capacidades de pensamento, agência de nossas próprias vidas e soberania intelectual e que trazem à tona a necessidade da Lei 10.639 que em 2003 instaurou a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura africana e afro-brasileira nas escolas do nosso país. Ainda assim, mesmo depois de 14 anos de promulgação desta Lei, o que sabemos sobre as sociedades africanas, especialmente sobre os povos que vieram para o Brasil no tráfico atlântico? O que sabemos sobre a história e a memória das trajetórias dos nossos antepassados negros e sobre os cultos dos orixás, nkises e voduns? As escolas e as universidades estão cumprindo o seu papel no enfrentamento ao racismo e na formação de gente qualificada para lidar com as questões como o racismo religioso? Ora, não é difícil encontrar pessoas que dizem que as oferendas são “coisas do diabo”, nem é difícil encontrarmos irmãos e irmãs negros que já sofreram com o racismo quando tentaram exercer sua fé afro-brasileira. Brasília, por exemplo, nos últimos anos, teve uma série de casos de terreiros de candomblés violentados.
    Chego ao fim deste texto, pedindo imensas desculpas, em especial ao povo de santo e aos povos negros deste país, por todo este mal entendido. Sabemos o quanto que áreas como a História foram responsáveis na construção de teorias equivocadas sobre as memórias dos nossos antepassados. Mas a História pode ser também o espaço das releituras do passado, dos novos questionamentos e da elaboração e ressignificação dos sentidos.
    Quando falamos, não temos controle sobre como nossas ideias podem ser interpretadas. Ontem, uma amiga que está em São Paulo me ligou preocupada porque disseram a ela que estava havendo uma confusão com o meu nome porque teriam me visto fazendo despachos na UnB e que isso tinha virado um escândalo. Eu já recebi diferentes versões do texto que está circulando e parece que já tem diferentes autorias.
    Amigos enviaram-me alguns posts de pessoas negras (que se diziam candomblecistas, de outras religiões ou sem religiões) que pareciam encantadas com a história que circulou. O que será que estas pessoas pensam sobre afetividades, solidariedades e quilombismo do nosso povo? O que será que sabem sobre os candomblés? Fiquei pensando: o que será que a minha mãe que está na Bahia e que é negra, sabe sobre os candomblés? E meu pai que morreu e que era branco, que ele sabia sobre tudo isso? Eu também estou aprendendo. Mas sei que quando passei a frequentar alguns terreiros de candomblé, ainda quando eu estava na minha cidade da Bahia, mainha ficou muito preocupada e demorou para compreender que eu e, posteriormente, o meu irmão caçula estávamos nos aproximando do universo das religiões de matrizes africanas. Ela achava que poderia estar perdendo seus filhos para alguma coisa ruim. É muito triste pensar que as nossas ancestralidades permanecem potencialmente negativadas, inclusive entre nós, povo negro. O racismo promoveu e ainda promove muita desinformação e isso afeta a todos nós.
    Desta experiência ficaram alguns aprendizados. Entre eles, que os ensinamentos são constantes e que seguimos aprendendo sobre as histórias do nosso povo, tão mal contadas.
    Palavra é encruzilhada”.
    Leandro Bulhões
    Doutor em História – Universidade de Brasília

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  • 16/06/2017 em 20:02
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    legal desmentir, xingar de racista e de burro a quem acreditou no tal “professor Leandro”. Legal também mencionar as sofisticadas cosmologias e cosmogonias. Mas não dava para citar um link, uma fonte, uma publicação? Falhou, Matsuki. Falhou.

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  • 16/06/2017 em 16:40
    Permalink

    Obrigada pelo esclarecimento, eu ja tinha visto esse texto e achei estranho pois meu filho é um estudioso no assunto e nunca vi que ele tenha feito algum comentário sobre essa origem. Perguntei para ele e ele me respondeu que já conhecia esse texto e que ninguém conhece esse Professor Leandro sem sobrenome, e que de qualquer forma essa origem africana de fazer as oferendas aos Orixás é bem mais antiga até do que a escravidão deles, portanto que a origem das oferendas seria para oferecer aos escravos fugitivos não tem lógica.

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